quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Em Honra de Nossa Senhora de Aboboriz Festa na Amoreira!


Decorre na Amoreira, Óbidos, de 30 de agosto a 3 de setembro de 2012, a festa em Honra de Nossa Senhora de Aboboriz.
 A organização preparou para os cinco dias dos festejos um vasto programa de animação, desde os habituais bailes, passando por provas desportivas, festa religiosa entre outras iniciativas.

Programa completo:

Quinta-feira, 30 de agosto
09h00 – Alvorada
18h00 – Futebol entre solteiros e casados
22h30 – Atuação do grupo “Soritmo”

 Sexta-feira, dia 31 de agosto
22h30 – Baile com o conjunto “Kontacto”
00h30 – Atuação do artista “Ruizinho de Penacova”

Sábado, dia 1 de setembro
16h00 – Vacada
22h30 – Baile com o grupo “Nautilus”

Domingo, dia 2 de setembro
 09h30 – Peditório acompanhado da banda da União Filarmónica de A-da-Gorda (UFA)
15h00 – Missa seguida de Procissão
18h00 – Concerto pela banda da UFA
22h30 – Atuação do conjunto “Os Lord´s”

Segunda-feira, dia 3 de setembro
 “Rapioca” em honra de José Ivo.

O Dj “Christophe” atua na sexta-feira e no sábado, depois da realização dos bailes. O arraial conta com serviço de quermesse, bar e restaurante.

Venha até á Amoreira e divirta-se!

domingo, 26 de agosto de 2012

Depois logo se vê!


De muitas coisas se pode acusar este Governo, mas não de falta de criatividade ou de capacidade para surpreender.
Desta feita tivemos a novidade de assistir a um consultor do Governo a dar uma entrevista a um canal de televisão, em horário nobre, para nos explicar em que pé andam as privatizações. Ou seja, sobre um assunto importantíssimo para o País, convenhamos que as privatizações da TAP, ANA ou RTP não são propriamente temas de lana caprina, em vez de termos um ministro ou mesmo o próprio primeiro-ministro a informar os portugueses (e, já agora, o CDS) dos respectivos processos, aparece António Borges. Mas, tentemos compreender, até se entende a ida de António Borges à TVI para informar os cidadãos sobre os dossiers em causa: o ministro da Economia não sabe e o ministro para a Comunicação Social não pode.
Santos Pereira anda perdido num ministério ingovernável e só aceitou ser ministro de semelhante monstro por não ter o mínimo de experiência governativa ou empresarial. Como a sua gritante falta de capacidade para um cargo destes ficou logo à vista de toda a gente, Passos Coelho tratou de lhe tirar as suas atribuições espalhando-as por este ou aquele ministro e por um sem-numero de comissões e comités. Pode lá ele falar sobre a TAP ou privatizações e ser levado a sério por quem quer que seja.
Miguel Relvas não pode aparecer sem que não lhe façam perguntas incómodas sobre licenciaturas, serviços secretos, mentiras em inquéritos parlamentares e tudo mais. A sua popularidade e credibilidade junto do cidadão comum faz com que qualquer proposta vinda da sua boca seja imediatamente repudiada. Relvas é um zombie político. Pode ser essencial para Passos Coelho, e, como muito boa gente diz, o único ministro que não tem medo de tomar decisões, mas politicamente acabou. Não podia ser ele a apresentar o que quer que fosse sobre a RTP.
Mas, seja como for, o Governo demonstrou uma falta de respeito gritante pelos portugueses quando enviou um consultor falar sobre o destino a dar a empresas tão importantes como a RTP e a TAP. Além disso, como se fosse pouco, mostrou outro mal bem mais profundo que este Executivo vem amiúde revelando: não havia planos nenhuns para assuntos vitais da governação e foi preciso arranjar uns senhores muito inteligentes para dizer o que fazer. Havia assim umas ideias coladas a cuspo, decoradas à pressa e sem o mínimo de reflexão.
Não, longe disso, não é o facto de os dois ministros teoricamente responsáveis pelos dossiers não poderem aparecer e terem de mandar um consultor que, na ignorância deles, pensam ser mais credível, é sobretudo nós percebermos que afinal não havia nenhuma ideia para a privatização da TAP, ou que ninguém tinha pensado verdadeiramente o que fazer com a RTP.
O caso da RTP é chocante: aquela patética comissão, as notícias plantadas nos jornais sobre possíveis compradores, fica com este canal, vende o outro ou fica com este e vende o outro, e agora esta coisa que Borges conseguiu apresentar aparentemente sem um pingo de vergonha. Uma revolucionária solução em que o Estado cede uma estação de televisão e garante um lucro chorudo ao feliz contemplado que é pago com os impostos de todos nós. Genial. Não, não é bem uma PPP, é, para o investidor privado, muito melhor. Este fica com uma companhia com mais de cinquenta anos de vida, com um enorme prestígio, com um património tangível e intangível único e ainda lhe garantem uma rentabilidade que fará roer as unhas de inveja um qualquer concessionário de auto-estradas.
É evidente que esta vergonha cairá no caixote do lixo das ideias, junto do fim da TSU e outras, que o Governo manda "cá para fora" para serem testadas. A comunidade ainda não está suficientemente adormecida para deixar passar uma coisa destas. Todo este processo é dum experimentalismo bacoco, duma falta de sentido de Estado, duma evidente impreparação, que assusta o mais crente nas qualidades deste Governo. Onde estão afinal as milhares de páginas de planos? As contribuições dos diversos grupos de trabalho? As ideias sólidas sobre o que fazer com a televisão pública? Eram precisos consultores para mostrar que a privatização da RTP não valia um chavo?
António Borges prestou-se, mais uma vez, a um triste papel: o de mostrar que afinal Passos Coelho e a sua equipa não sabiam o que fazer em questões fulcrais e mentiram dizendo que sabiam. O drama é que ainda não sabem e não é só, infelizmente, no caso da RTP.

PEDRO MARQUES LOPES - DN


domingo, 19 de agosto de 2012

Mulher ganha 180 mil euros na raspadinha.


Bastaram três euros para que uma mulher, de cerca de 60 anos, ganhasse 180 mil euros na raspadinha Pé-de-Meia. A premiada, que comprou o seu bilhete no Barreiro, vai receber 1500 euros por mês, ao longo de dez anos.

A raspadinha Pé-de-Meia já deu mais de 36 milhões de euros em prémios, desde o seu lançamento, em Junho de 2011. Desta vez, o bilhete ‘dourado’ foi comprado na casa de jogos Jackpot, no Barreiro, e os proprietários não cabem de felicidade por terem dado mais um grande prémio.

"Estou muito feliz por dar mais um prémio elevado. A senhora até veio cá confirmar a autenticidade da raspadinha porque não queria acreditar.Estava realmente muito contente com os 180 mil euros. Não é uma cliente habitual, mas quando vem cá costuma jogar sempre", disse ao CM Eduardo Ameixa, dono da casa de jogos.

A raspadinha Pé-de-Meia já vai na sua quinta emissão, o que revela o sucesso deste jogo,explicou ao CM o departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Até agora os apostadores tinham à disposição dez raspadinhas, que custavam entre um a três euros. Contudo, soma-se uma nova raspadinha, que amanhã chega ao mercado, a Super Pé-de-Meia.
A custar cinco euros, este jogo terá um prémio de 288 mil euros, com o pagamento de dois mil euros por mês, durante doze anos.

Débora Carvalho - CM


sábado, 18 de agosto de 2012

As medalhas no desporto.


1 - Sempre que se realiza uma grande competição desportiva, europeia ou mundial, a opinião pública dos vários países pede triunfos, medalhas.

Em alguns lugares do mundo isso faz sentido.

O Estado assume políticas, promove investimentos, atribui bolsas e estágios, garante emprego e, assim sendo, os cidadãos, que tudo pagam, têm legitimidade para questionar os resultados e assumir posições exigentes.

Infelizmente, essa não é a realidade portuguesa.

O Estado tem sido incompetente para enquadrar o movimento associativo. Não aposta no desporto escolar como forma de descobrir jovens talentos. Descura as suas responsabilidades como tutela que deve estabelecer objetivos, definir políticas. Limita-se a atribuir uns subsídios e lava as mãos dos resultados. São, aliás, assim as chamadas elites de "decisores" nacionais: convicções, empenhamento e responsabilidade não é nada com eles. Estão sempre do lado da análise e empenhados no projeto seguinte. Incompetência, portanto.
No que aos responsáveis do desporto diz respeito, a regra tem sido o almoço e o jantar, o convite do senhor presidente e umas medalhas mediáticas. Zero!

2 - De quatro em quatro anos, por altura dos Jogos Olímpicos, a realidade fica à vista.
As poucas medalhas vêm do trabalho dos clubes, patrocinados pelas grandes empresas nacionais. De vez em quando há alguma federação que se destaca pelo bom trabalho, como agora acontece no remo e na canoagem, antes no judo (e igualmente no atletismo, que tem qualidade à escala europeia).
A grande realidade, no entanto, é que o desporto português, descontando o caso do cluster do futebol, tem dificuldade em competir ao mais alto nível porque o Estado, como os atletas que descendem das suas fracas políticas, apenas cumpre os mínimos. Antes não programa - atribui subsídios mediante compromissos elementares. E depois, hipocritamente, esquece os poucos homens e mulheres que no desporto conseguem ir além da vulgaridade. Não utiliza nem os seus conhecimentos nem a sua capacidade de mobilização da juventude. Carlos Lopes é o símbolo máximo desses campeões esquecidos. Infelizmente há mais.

3 - O caso português é tanto mais evidente quanto contrasta negativamente com a realidade da União Europeia, que em Londres voltou a creditar-se como o espaço mais evoluído do mundo em termos desportivos.
Os atletas da União Europeia conquistaram 92 medalhas de ouro, mais do que os Estados Unidos (46) e a China (38) juntos. No total, com prata e bronze, 306 medalhas, contra 104 dos Estados Unidos, 88 da China e 82 da Rússia. Mesmo descontando o facto de ter competido com mais atletas e mais equipas nos desportos coletivos, a União Europeia marca claramente a diferença e, nela, o desporto nacional acentua a sua mediocridade: a prata dos canoístas Fernando Pimenta e Emanuel Silva iguala Chipre e só deixa para trás a Áustria, Luxemburgo e Malta.

Neste contexto, os atletas nacionais devem ser, em vez de criticados, elogiados pelo que conseguem fazer. Competem com profissionais cuja elite trabalha descansada porque têm empregos garantidos para depois da alta competição, apoios certos, bolsas que permitem uma vida normal às famílias a que pertencem - ou, então, representam sociedades onde os patrocinadores não se dedicam apenas ao futebol.
Mais, enquanto não mudar a mentalidade dos governantes, não é sério exigir mais aos atletas portugueses em Jogos Olímpicos.

Tão estúpido quanto exigir medalhas à maioria dos nossos atletas é pedir aos bombeiros que apaguem todos os fogos com prontidão quando a nossa floresta é aquilo que se sabe, também fruto de falta de políticas adequadas e da devida responsabilização dos proprietários. Pode ser que a fúria reformista chegue um dia destes a estes sectores, quem sabe...?

JOÃO MARCELINO - DN

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Casal britânico vencedor do jackpot de 190 M€ quer viver «uma vida normal».


Adrian e Gillian Bayford, de Suffolk, no leste da Inglaterra, afirmaram que iriam dar aos filhos uma educação normal, revelando hoje as suas identidades, numa conferência de imprensa, e acrescentando que algum do dinheiro seria distribuido por amigos e familiares que os apoiaram nos primeiros anos do seu casamento.
 

Gillian Bayford, de 40 anos, disse que o casal tinha jogado no Euromilhões porque temia não receber o seu salário de assistente de cuidados de saúde num hospital.
 "Apostámos porque precisávamos de dinheiro", disse Gillian, adiantando que "todos temos feito um esforço financeiro por causa da recessão económica, e este mês estava extremamente apertado".
 Gillian Bayford disse que planeava comprar um Audi Q7 desportivo, "um carro robusto parecido comigo, que sou robusta", enquanto que, para o seu marido, mais baixo, brincou dizendo que um Mini seria o ideal.
 Os seus dois filhos, ainda pequenos, querem visitar a Disney World, mas os Bayford foram avisando que querem continuar a viver a vida de "uma família normal".
 "Estamos com os pés no chão", afirmou Gillian Bayford, acrescentando que iriam pensar com calma antes de sairem da sua modesta casa.
 Adrian Bayford, de 41 anos, disse que usaria parte do dinheiro para continuar o seu negócio da loja de música, e insistiu que continuaria atrás do balcão.
 Descrevendo o momento em que perceberam que tinham os números da sorte, Gillian lembrou que "foi simplesmente irreal - eu olhei para ele e estava um pouco pálido e pensei 'talvez esteja a dizer a verdade...'"
 A feliz vencedora disse que a perspetiva de ter ganho 148 milhões de libras (190 milhões de euros) era "um pouco assustadora, mas excitante".
 "É algo para compartilhar com outras pessoas, amigos e familiares, pessoas que nos apoiaram", disse, acrescentando querer fazer com que as pessoas sorriam, pois "há muito tempo que as pessoas mais chegadas a nós têm rostos tristes".
 Os Bayford consideram também dar algum dinheiro a instituições que apoiam crianças, já que Gillian trabalha numa enfermaria para crianças.
 Gillian Bayford afirmou que gostava de paraquedismo e que o seu marido gostaria de visitar as montanhas rochosas do Canadá, de comboio, mas o casal disse que não planeia nada de extravagante para si.
 "Eu sou escocesa e somos conhecidos por sermos sovinas", observou Gillian rindo.
 Cinco dos dez maiores 'jackpots' na história do Euromilhões foram britânicos.

Diário Digital com Lusa

domingo, 12 de agosto de 2012

Mariquices!


Não sou adepto do Benfica e, como sportinguista, não tenho gratas memórias de Luisão. Mas nessa não simpatia, que não significa antipatia ou animosidade, devo reconhecer que é um excelente atleta. Sarrafeiro, manhoso, e também um defesa seguro e que impõe respeito.
Agora, vejo imagens em que o envolvem com um árbitro alemão e não posso deixar de sorrir ao ver que Luisão apanhou pela frente um manhoso muito melhor do que ele. Nunca vi nada igual. O árbitro assinala uma falta, Luisão e outro jogador do Benfica discutem a bondade da apitadela, e até é possível que o defesa se tenha encostado a ele.
O alemão, ignorando a tradição bélica prussiana, atira-se para o chão inanimado, ou fingindo-se inanimado, o jogo pára, entram assistentes, os jogadores das duas equipas não sabem se hão-de rir se levar a coisa a sério, e a história termina minutos depois com o tipo a levantar-se, a marchar para as cabines, e o jogo anulado. Acho que Luisão, a esta hora, ainda deve estar a perguntar-se onde é que foi parido um sabidão maior do que ele. Só podia ser alemão. Do país que manda na Europa. E agora corre o risco de o homem amuar por ter posto meio estádio a rir por causa da mariquice da cena e escrever um relatório onde o jogador pode correr o risco de ser irradiado. Risco sério, diria eu.
Qualquer lusitano, nestes dias de crise, deve reverenciar os árbitros alemães. São os donos da bola e do jogo que se disputa em todos os relvados governamentais, o que quer dizer que, no petisco europeu, têm a faca e o queijo nas mãos. Ora Luisão ameaçou armar--se em grego e o árbitro desmaiou depressa. E daqui retira-se uma conclusão em jeito de metáfora: sejam árbitros de futebol, sejam da troika, quando trimestralmente vêm fiscalizar o comportamento do País face à penhora que nos está imposta, a tentativa de encosto cai mal em pano germânico.
Vítor Gaspar faz muito bem compondo aquela postura educada que não encosta em demasia, não protesta, apenas cumprimenta e de longe. É que se o hábito pega, partindo da fita do árbitro do encontro particular, não vai ser difícil ver peritos caídos pelo chão do Terreiro do Paço, inanimados, porque apitaram com defeito em qualquer das contas do orçamento de Estado que têm sobre vigilância. E se mandam terminar o jogo é uma chatice. Lá marcharemos todos para a fila da sopa do Sidónio.
Francisco Moita Flores, Professor Universitário - CM

quinta-feira, 19 de julho de 2012

D. Januário e os outros.


Que, como há 50 anos, um bispo tenha de novo erguido a voz, fazendo "política" em vez de se remeter à sacristia, eis o escândalo que agita hoje esta espécie de tempos democráticos e de liberdade de expressão em que vivemos.
Também em 1958 a Igreja institucional se demarcou da carta do bispo do Porto a Salazar. Revelaria mais tarde D. António que até "da Cúria vaticana alguém [lhe] disse: "Bem sabemos que isso é doutrina da Igreja; mas se, de um lado e de outro sabemos isso, para que estar a pregá-lo?".
Em muitos aspectos, essa carta é hoje de novo singularmente actual: voltaram à rua o "mendigo, o pé-descalço, o maltrapilho, o farrapo (...), os subalimentados"; e o "financismo 'à outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os pequenos", o "ciclo da miséria" são outra vez "o centro da Nação".
Por isso, mais actuais que nunca são também os versos de Sophia: "Porque os outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para comprar o que não tem perdão./ Porque os outros têm medo mas tu não./ Porque os outros são os túmulos caiados/ Onde germina calada a podridão./ Porque os outros se calam mas tu não./ Porque os outros se compram e se vendem/ E os seus gestos dão sempre dividendo./ Porque os outros são hábeis mas tu não./ Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos./ Porque os outros calculam mas tu não".


A pátria empobrecida.


E de repente, este vazio cheio de vozes inúteis. "Apetece cantar e ninguém canta / Apetece gritar e ninguém grita..." Escreveu Miguel Torga. O desespero era semelhante ao de agora porque a mão do medo entravava a condição de todos. Os acasos da fortuna, os equívocos da época e as ambiguidades de carácter de muitos homens embrulharam-nos neste sudário. Repete-se a história dos lutos portugueses. Os espanhóis Unamuno e Ortega falaram do nosso infortúnio. O primeiro com terna simpatia; o segundo com displicente desprezo. Unamuno tentou compreender-nos. Ortega observou-nos com azeda desconsideração.
Olhamos em volta. Talvez mereçamos ambas as perspectivas. A qualidade da existência colectiva, acaso possa medir-se nessa dualidade. Elegemos quem nos faz mal por excesso de incoerência e vocação para o infausto. A História está repleta desse mal-entendido vital. Mas poucas vezes, como agora, estivemos no interior do círculo concêntrico da angústia sem saída.
O projecto de empobrecimento de Pedro Passos Coelho enfraqueceu, sobretudo, a nossa alma. Mas a diminuição projectada para os outros diminuiu quem a executou. Ou, melhor: quem a executou está desprovido da grandeza exigida aos que dirigem e decidem. Observemos os rostos desta gente: reflectem a génese dos que não possuem força natural, e mais não são do que expressões servis e inconsistentes. Gil Vicente narrou-os e ao espírito que os anima, antes de qualquer outro. Camilo e Eça remataram o retrato. São filhos, netos e bisnetos dos que se julgam sacramentados pelo direito divino, e não têm de dar satisfações pelos seus actos. Quando alguém se ergue, através do trabalho, do talento e da vontade, para tentar modificar as coisas, logo ressuscitam os velhos e malditos poderes. "O país é pequeno, e não maior a gente que o habita." A frase é atribuída a Herculano, que desistiu com um parágrafo terrível: "Isto dá vontade de morrer!"
As balbúrdias morais que por aí se cometem e circulam têm servido de pretexto ao anedotário. Mas o assunto não dá para rir. Ele revela o estado de irresponsabilidade doentia a que Portugal chegou. E não creio que consigamos sanar a endemia com facilidade. O mal propagou-se, e os que ficam ao lado desta miséria, sem querer salpicar-se, por inércia ou receosa precaução, demitem-se do civismo que constrói a cidadania. Sei muito bem que estes princípios e padrões de comportamento são tidos como anacronismos. E talvez nem todos sejamos virgens impolutas. Porém, não esqueçamos de que a enxurrada arrasta tudo e todos.
Ao deixar de ouvir as nossas sociedades civis, o Governo sobreviverá até que o PS encontre uma alternativa (António José Seguro, averiguadamente, não o é) e redescubra a sua natureza ideológica. E cuja matriz toda a gente, na realidade, ignora. Entretanto, a pátria está de mão estendida.

BAPTISTA-BASTOS – DN

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A fronteira da escravatura.


Os valores da sociedade portuguesa estão a mudar. Para melhor? O futuro é sempre melhor que o passado. Mas há fases no presente em que os valores parecem ter regressado a passados de trevas. Hoje já confundimos direitos que conquistámos quando abolimos a escravatura com o dever de praticar a caridade.
Os valores da sociedade portuguesa estão a mudar. Para melhor? O futuro é sempre melhor que o passado. Mas há fases no presente em que os valores parecem ter regressado a passados de trevas. Hoje já confundimos direitos que conquistámos quando abolimos a escravatura com o dever de praticar a caridade.
Na semana passada chegou ao espaço mediático a notícia sobre as condições em que estavam a viver cerca de 50 pessoas que trabalhavam para a Opway e a Somague na construção do centro de dados da PT na Covilhã. Começou no "Jornal do Fundão" e chegou a uma reportagem na SIC Notícias. Aquilo, não se queria acreditar, estava a passar-se em Portugal. Abandonados num armazém sem água, nem luz, nem condições sanitárias. Trabalhadores, boa parte imigrantes, a trabalharem para um empresa subcontratada por duas construtoras de referência que estavam ao serviço de uma das mais importantes companhias portuguesas cotadas em bolsa. Todas elas, Opway, Somague e PT têm vastos relatórios sobre sustentatibilidade e discursos sobre a responsabilidade social. Nenhuma se considerou realmente responsável pelas condições que estavam a dar a quem trabalhava para elas, ainda que por via de um subempreiteiro.
Há alguns anos que nos vamos habituando à falta de ética nas empresas. Um défice de ética que as empresas na Europa como nos Estados Unidos foram corrigindo com relatórios em cima de relatórios sobre sustentabilidade e responsabilidade social que são basicamente "papas e bolos para enganar tolos" ou asas de anjos com sombra de demónio, como uma vez tão bem retratou a revista "The Economist". As mais recentes revelações sobre o comportamento do Barclays e, suspeita-se, de outros bancos, na fixação da Libor, taxas de juro determinantes para o custo do crédito de empresas e famílias, revelou mais uma vez que a ética corporativa anda pelas ruas da amargura, para não se dizer que a indignidade tomou conta do poder nas empresas.
Que as empresas, da banca às telecomunicações, da construção à industria de vestuário, vivem tempos em que a ganância dita a queda de todos os valores já todos estamos mais ou menos habituados. Maus hábitos, é verdade, mas já não nos surpreendem.
O que não sabíamos é que cada um de nós, individualmente, também já estava contagiado. Que cada um de nós também já tinha deixado cair valores ganhos desde o tempo em que caiu a escravatura e, mais tarde, os sindicatos estabeleceram fronteiras de humanização do trabalho.
A história dos trabalhadores da Covilhã, a viverem num armazém, foi chocante por aquilo que se é capaz de fazer para ganhar uma margem no negócio. Mas foi mais chocante ainda pela imagem que deu da sociedade indiferente em que nos transformámos.
A primeira reacção às condições degradantes de vida daquelas pessoas foi contactar o Ministério da Solidariedade Social como se de um caso de caridade se tratasse. Há uns anos, não muitos, o sítio onde todos nós buscaríamos uma resposta seria no Ministério do Trabalho, mais concretamente na Inspecção Geral do Trabalho. E a Opway, a Somague e a própria PT teriam muito que explicar, não se desculpando com subempreitadas ou com empregos que vão criar.
Houve também um tempo, na escravatura e nos primeiros tempos da revolução industrial, em que o medo fez com que tudo se aguentasse. Até ao dia em que se perdeu o medo. O que é mais aterrador na actual crise é a impossibilidade de qualquer sociedade europeia aguentar a degradação de valores que as lideranças querem impor para ultrapassar os actuais problemas.

Helena Garrido – Jornal de Negócios Online

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A porca da política.


Os negócios dominam a vida política. A confusão entre interesses privados e públicos é regra. O maior antro deste tráfico de influências é a Assembleia da República. Desde a comissão parlamentar de acompanhamento ao programa de assistência financeira, onde os interesses da EDP estão representados através dos deputados Pedro Pinto e Adolfo Mesquita Nunes, até à comissão de agricultura, onde o parlamentar Manuel Isaac fiscaliza a actividade do Ministério que tutela o sector da empresa a que está ligado. São dezenas os deputados que, de forma aparente, potencial ou real, estão em situação de conflito de interesses.
Mas a promiscuidade não se esgota aqui. Contamina até o Banco de Portugal, em cujos órgãos sociais têm assento representantes da banca privada como António de Sousa, que assim se pronunciam e condicionam a actividade do Banco Central, que supervisiona as entidades para que trabalham.
Só neste caldo de cultura poderiam nascer negócios ruinosos como as parcerias público-privadas rodoviárias, com lucros garantidos aos privados e riscos a correr por conta do estado. O que talvez se perceba se atentarmos que os principais administradores das concessionárias das PPP são os ex-ministros das obras públicas dos governos que as conceberam e implementaram. Como Ferreira do Amaral gizou o negócio da Ponte Vasco da Gama e preside hoje à entidade concessionária, a Lusoponte; ou Jorge Coelho e Valente de Oliveira que são administradores da Mota Engil, a empresa dominante no sector das parcerias.
O poder dos negócios sobre o interesse público é tal que um grupo privado, o Mello, consegue dispor de crédito de quinhentos milhões dum banco público, a Caixa, para uma operação de aquisição de uma empresa privada, a Brisa; para que mais tarde esta se possa eventualmente candidatar à privatização de uma empresa pública, a ANA. Aterrador! Os administradores da Caixa, nomeados politicamente, já não são só promíscuos, parecem mercenários.
Os interesses privados capturaram os agentes políticos e alimentam-se da enorme manjedoura que é o orçamento de estado. Como diria Bordalo Pinheiro, "a política é uma porca em que todos querem mamar". E neste regime, os mamões estão insaciáveis.

Paulo Morais, professor universitário-CM

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Lotaria de Natal paga nova unidade da Santa Casa.


Santa Casa inaugurou uma nova  unidade de cuidados continuados em Cascais.
                    Instituição recebe o nome de Maria José Nogueira Pinto

A unidade de cuidados continuados e paliativos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) em Cascais, vai apoiar 75 pessoas com dependências físicas e doenças de longa duração, segundo uma administradora do organismo.
"É um projeto que é ambicionado desde 2004 para dar acolhimento a grandes dependentes físicos e doentes de grande duração. Tem quatro pisos, 70 quartos e 75 camas", disse à Agência Lusa a administradora da SCML com o pelouro da Saúde, Helena Lopes da Costa.
Ao nível dos cuidados paliativos, a população alvo abrange ainda, segundo a administradora, doentes com "prognóstico de vida limitada", com "sofrimento físico e psíquico muito grandes e problemas e necessidades complexas".
Com a inauguração, e depois de ultimar os últimos regulamentos com a Entidade Reguladora da Saúde, Helena Lopes da Costa acredita que a unidade vai ter "casa cheia", dada a "necessidade de camas" nesta área de prestação de cuidados de saúde.
“Há muita falta de camas para cuidados continuados e paliativos em Lisboa, há grandes listas de espera. Em Portugal, com o crescimento da idade média de vida mas com algumas doenças, surgem problemas e muita gente não tem suporte familiar para ajudar e têm de recorrer a este tipo de apoios", disse Helena Lopes da Costa.
Para a administradora, esta unidade é de "extrema importância", uma vez que poderá prestar serviços de também a pessoas que vivem isoladas e "com elevados graus de dependência" na capital e que, assim, poderão receber um acompanhamento mais próximo.
Com um investimento de cerca de nove milhões de euros, a construção da unidade foi concluída oito anos depois de ter sido pensada inicialmente, em 2004, por Maria José Nogueira Pinto, quando era provedora da SCML. Por isso, a unidade recebe o nome da ex-provedora, falecida há um ano com cancro no pâncreas.
Para o conhecimento geral, no  Natal de 2004, ano em que não foi vendido o número sorteado na Lotaria de Natal, a então provedora da Santa Casa decidiu que o valor do prémio seria para investir numa unidade de cuidados continuados e paliativos.
A unidade vai trabalhar em sinergia com as duas outras unidades de saúde da SCML - Hospital Ortopédico de Sant'Ana e Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão.

domingo, 8 de julho de 2012

Trabalho, salário, dignidade!


Revoltemo-nos e mobilizemo-nos contra a desvalorização do trabalho, contra a exploração oportunista, contra a ausência de dignidade com que tratam os trabalhadores. É ignóbil pagar a um enfermeiro ou enfermeira menos de 4 euros por hora, a jovens engenheiros, arquitetos, designers, economistas, etc., entre 400 e 600 euros por mês, impondo-lhes até a utilização de viaturas próprias para fazerem o trabalho.
É vileza e malvadez fazer-se toda uma campanha de motivação dos jovens para que façam formações com qualidade, e depois, por exemplo, os grandes escritórios de advogados, os grandes meios de Comunicação Social, múltiplas empresas das mais diversas áreas, explorarem estagiários e profissionais em início de carreira, colocando-os a fazer trabalho normal sem retribuição ou a troco de míseros subsídios.
É revoltante observarmos multidões de trabalhadores que em call centers, ou noutras atividades, são remunerados por valores que oscilam entre os 2 e os 3 euros por hora.
Não se admite que o salário mínimo nacional (SMN) continue tão baixo e que existam dezenas e dezenas de milhares de trabalhadores a quem nem sequer o SMN é pago, enquanto alguns senhores se abotoam com centenas de milhares ou milhões de euros por ano.
É ainda revoltante ver governantes, serviços públicos como o IEFP, gestores ou patrões instalados, académicos ao serviço do sistema dominante a responsabilizarem individualmente os jovens pelo seu futuro, vendendo-lhes a trapaça do "empreendedorismo" neoliberal como solução milagrosa que tudo vai resolver.
A redução violenta dos salários, o desemprego em massa e a generalização das precariedades no trabalho constituem-se hoje, inequivocamente, como três opções estruturantes das políticas que vêm sendo impostas aos portugueses. Não tenhamos dúvidas: elas fazem parte dos grandes objetivos a atingir pelo "governo interno" (de Passos Coelho) e pelo "governo externo" (da troika e C.ª), que as determinam como "necessidade".
A crise surge a justificar o desemprego, o corte nos salários, as instabilidades e inseguranças no trabalho, mas estas duras realidades foram e são "matéria-prima" da gestação e do aprofundamento da própria crise. Serviram o cavalgar da ofensiva neoliberal, tornando a sociedade cada vez mais carregada de desigualdades na utilização e distribuição da riqueza; agora, aceleradamente, estão a alimentar um perigoso retrocesso social e civilizacional.
Este retrocesso tem como alvo fundamental o trabalho, o seu valor e os direitos laborais e sociais a ele associados.
O trabalho é atividade produtiva indispensável para a criação de "valores" de uso e de troca. É imprescindível que a economia seja sustentada pelo trabalho e não por processos de financeirização e especulação.
O trabalho, valorizado e impregnado de comportamentos responsáveis, é espaço primordial de socialização. Em muitas situações tem até mais importância que o espaço família.
O trabalho digno, inserido num processo de efetivo desenvolvimento e sustentando-o, convoca aprendizagens e qualificações e desenvolve-as, sendo motor de avanços tecnológicos e organizacionais, de modernização de empresas e serviços.
A valorização do tempo e das condições de trabalho é a única via segura para valorizar o tempo e as atividades do não trabalho. Um homem ou mulher que trabalha deve ter condições para efetivar o seu trabalho com motivação, dignidade e responsabilização, e a sua condição de trabalhador não pode tolher a condição de cidadão e do ser humano pleno. Se não houver salários dignos e tempo para a família, para a formação, para o lazer, para a participação cívica e política, jamais se sustentará um conjunto de atividades importantes das sociedades modernas desenvolvidas e a democracia será estrangulada.
O salário não é um mero custo. Ele dinamiza a economia. Entretanto precisamos de substituir as loucuras do enfoque à competitividade e à produtividade por objetivos de desenvolvimento humano, mas isso não será feito com ataque aos valores do trabalho.
Pela via da desvalorização do trabalho não se encontrará o desenvolvimento, o progresso, a justiça social a que o povo português tem direito.


domingo, 24 de junho de 2012

Uma sardinha, várias bocas.


À mesa lá de casa, as conversas sobre os tempos de miséria em que o meu pai tinha de partilhar uma sardinha com os irmãos (e não eram poucos...) só vinham à baila quando, por qualquer motivo, se discutia a abastança que o desenvolvimento económico nos trouxera. Havia um lado quase pitoresco naqueles relatos, resultante da distância, que eu era incapaz de medir, entre a altura em que o meu pai teve de pedir uns socos emprestados para fazer o exame da 4.ª classe e a altura em que eu pedia ao meu pai dinheiro para ir à discoteca, ou para comprar uma sapatilhas xpto.
Não é que hoje consiga alcançar com maior nitidez a rudeza desses dias em que o meu pai se fez alfaiate para garantir a subsistência da família. Mas hoje consigo perceber melhor a rigidez que tomava conta da face do meu pai, quando nos lembrava (a mim e à minha irmã) que era errado dar como adquirido que aqueles tempos já mais regressariam.
Regressaram. Seguramente (ainda) não com a extensão das décadas de 60 e 70. Mas regressaram.
O meu pai trabalhava de sol a sol e recebia, em troca, meia dúzia de escudos. Não era escravidão, mas andava lá perto. Hoje, pululam na Internet os anúncios de pessoas desesperadas, capazes de trocar o seu trabalho por comida. Não é escravidão, mas anda lá perto.
Hoje, somam-se factos atrás de factos que, juntos, nos pregam um longo frio na espinha.
As famílias estão a poupar como nunca na alimentação: as empresas de retalho vivem a pior crise desde 1974, com falências em catadupa e quebras de vendas sempre a crescer.
O desemprego segue uma impressionante trajetória ascendente e são já mais de 300 mil as pessoas que não têm emprego nem qualquer subsídio estatal.
A economia afunda bem mais depressa do que podia julgar-se: a queda da receita fiscal está já muito além do que o Governo previa.
O saldo da Segurança Social deteriora-se, por via do aumento dos subsídios a pagar e da diminuição das contribuições e quotizações para o sistema.
A teoria do bom aluno provou as suas expectáveis limitações: mesmo fazendo tudo direitinho, tal e qual a troika nos exigiu, a meta do défice está cada vez mais longe. Vale o mesmo dizer: novas medidas de austeridade estão cada vez mais perto. E com elas acentuar-se-ão ainda mais as fragilidades desse crescente exército de desempregados, de explorados, de marginalizado que campeia pelas nossas cidades, vilas e aldeias.
Era evitável o regresso aos tempos em que, à mesa, uma sardinha tem de satisfazer várias bocas? Era. Consumado isto, o que nos deve preocupar agora é amenizar a extensão do problema. Como? Não sei. E o que mais temo é que seja verdadeira esta sensação de que quem manda também não saiba.