domingo, 13 de abril de 2014

Primeiro-Mentiroso!




Passos Coelho, quando candidato nas últimas eleições, prometeu o céu. Mas remeteu-nos ao inferno. Em campanha, tinha garantido que jamais aumentaria impostos. Afiançou também que não seria necessário baixar salários, pensões e reformas ou retirar subsídios. 
O equilíbrio das contas públicas far-se-ia com a redução de gorduras nos sectores intermédios do estado, a diminuição das rendas das parcerias público-privadas e, a longo prazo, com uma profunda reforma da Administração. Dois anos volvidos, conclui-se que Passos Coelho aplicou medidas precisamente opostas às que tinha prometido. Mentiu-nos, numa atitude em que foi acompanhado pelo seu parceiro de coligação. 
O CDS defendia a diminuição da carga fiscal, até chegar ao governo e se tornar cúmplice do seu agravamento. O antecessor de Passos, José Sócrates, fez o mesmo. Prometendo não aumentar impostos, não tardou em fazê-lo quando subiu ao poder. Mais um mentiroso. Da mesma forma, Durão Barroso tinha anunciado, na campanha de 2002, um choque fiscal, com uma brutal redução de impostos. Mal tomou posse, a primeira medida tomada pela sua ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite foi… aumentar impostos. 
O comportamento de dirigentes que, deliberadamente, enganam o povo em campanha não é admissível. A democracia só é autêntica quando se contrapõem, nas eleições, projetos alternativos. Os eleitos devem-se sentir obrigados a honrar e implementar o programa vencedor. Não há desculpas para não cumprir, nem mesmo o desconhecimento da realidade concreta. 
Quem se candidata a lugares desta importância não pode revelar tamanha incompetência. Com estas práticas de mentira reiterada, desacredita-se todo o sistema democrático. Os deputados votam leis contrárias ao programa a que se vincularam em campanha, violando assim a lealdade que devem aos seus eleitores. 
Os partidos do arco do poder transformaram os processos eleitorais, que deveriam servir para o debate de ideias e confronto de projectos políticos, em circos de sedução em que acaba por ganhar quem é mais eficaz a enganar os cidadãos. As eleições transformaram-se em concursos para a escolha do melhor mentiroso. O troféu em jogo é a chefia do governo.


Paulo Morais, Professor Universitário - CM

segunda-feira, 31 de março de 2014

Resistir é preciso e é urgente!


Voltou o pé descalço, a fome envergonhada ou às claras, miúdos às centenas que vão para a escola sem nada no estômago. O empobrecimento da pátria é um ultraje e uma má memória para quem, como eu, por exemplo, é do tempo da miséria religiosa do salazarismo.

Com o ar grave e a voz timbrada que se lhe conhecem, o dr. Pedro Passos Coelho foi às televisões e disse: "Vou tomar medidas para erradicar a fome no nosso país." Além do tropeção no idioma (que lhe é comum), esclareço que quem "toma medidas" são os alfaiates e as costureiras; ele, Passos, como governante "toma decisões." Depois, há uma insultuosa falta de pudor, quando assevera que irá "erradicar a fome no nosso país." Não foi ele que proclamou o "empobrecimento" dos portugueses como estratégia necessária ao equilíbrio das finanças?

Semeou a fome, a miséria, o desemprego. Incitou os jovens a sair da pátria; acabou com milhares e milhares de empresas; perseguiu, e persegue, os funcionários públicos, os pensionistas, os reformados; corta ferozmente nos salários, nas pensões, nas receitas ordinárias dos mais desvalidos; os velhos são ignorados e, pior do que isso, desprezados como objectos inúteis; tripudia sobre os valores mais sagrados da democracia; acabou com os feriados do 1.º de Dezembro e do 5 de Outubro e anda, ele e os seus, com emblemas da bandeira republicana ostensivamente na lapela. A lista de iniquidades, aleivosias e indignidades é a mais longa registada em Portugal na II República. Não é nunca de mais repetir os malefícios feitos por este homem ao País, pois a máquina de propaganda do Governo, que custa fortunas ao erário público, não deixa de nos matraquear com embustes e falsidades.

O problema destas políticas celeradas é que muitas delas são tão fundas que dificilmente podem ser anuladas. Depois, uma inércia e uma aparente resignação populares deixam livre o caminho para as manigâncias. Já se viu que o PS de António José Seguro não dispõe nem de força, nem de ideologia, nem de massa crítica que possam enfrentar, com denodo e eficácia, a formidável tempestade desencadeada por estes gestores de empresas, que transformaram Portugal numa república de gente amorfa.

Quem vier a seguir a esta gente, se for outra com rumos diferentes, vai ter uma tarefa hercúlea para inverter a tendência. Não me parece, francamente não me parece, que o actual secretário-geral do PS, se for o caso, disponha de estilo político e de poder necessários à transposição. Aliás, a chamada de Jorge Coelho e de José Sócrates à primeira linha da luta, revela até que ponto é elevada a preocupação dos dirigentes socialistas. Apesar da violência da política de Passos, a diferença, nas sondagens, entre os dois partidos "de poder", é mínima.

A miséria que alastra no País, o aumento do número de pobres, ainda há dias anunciado pelas estatísticas, são de molde a deixarem-nos encrespados. Voltou o pé descalço, a fome envergonhada ou às claras, miúdos às centenas que vão para a escola sem nada no estômago. Voltou o país esmoler, de mão estendida à porta das igrejas. Voltaram as instituições de apoio social a garantir pão e sopa a milhares de portugueses. O empobrecimento da pátria é um ultraje e uma má memória para quem, como eu, por exemplo, é do tempo da miséria religiosa do salazarismo. Em três anos de governação, Passos Coelho e os seus fizeram-nos regredir cinquenta, e depredaram os sonhos e as esperanças dos nascidos depois da queda do fascismo. Não podemos permitir que o agravo prossiga. É preciso voltar a escorraçar o medo.

Relembrar Abril e a Resistência
Uma das vozes mais genuínas e poderosas da Resistência, antes e depois do 25 de Abril, é a de Manuel Alegre. Os poemas que nos ofereceu, com generosa grandeza, constituem um imparável acervo de esperança e de incitamento à não renúncia. Um grande poeta, na tradição de combate que marca a nossa lírica como um emblema e uma alusão à decência e à dignidade, mesmo quando tudo parece perdido. Nesta quadra de memórias e de lembranças do sonho, a Dom Quixote publicou uma selecção de alguns dos mais belos e significativos poemas do autor de "Trova do Vento que Passa", que tem sido o hino de várias gerações. "Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não." O livro, "País de Abril", insere textos poéticos estranhamente premonitórios do que iria acontecer, anos mais tarde, numa madrugada luminosa. E simbolizam a coragem e a probidade moral e cultural de um homem que sempre recusou capitular ou trair. "País de Abril" é, além de tudo o mais, um texto estimulante, nestes tempos sombrios.


b.bastos@netcabo.pt

domingo, 2 de março de 2014

Acordaram o urso e dizem que a culpa é do urso.


Há 161 anos, a Rússia envolveu-se numa guerra contra a França, a Grã-Bretanha, o Império Otomano e a Sardenha. A Rússia perdeu. O conflito, entre 1853 e 1856, ficou conhecido como a Guerra da Crimeia.
Hoje, é outra vez e desgraçadamente a Crimeia. Mas, se as razões para a Rússia ser novamente protagonista não são talvez as melhores, são no entanto razões diferentes.
Como se sabe, o até há algum tempo presidente ucraniano foi derrubado e está agora refugiado na Rússia. Aqueles que o fizeram cair, esses, dizem-se "pró-europeus".
A verdade é que Ianukovitch, um patifório com quem ninguém de bom trato tomaria chá, tinha sido eleito em 2010, com um mapa dos resultados eleitorais revelador. Realmente, ganhou, e por grande margem, o leste e sul do país, e perdeu, e por grande margem, o ocidente para Timochenko, a sua rival (que também não é flor que se cheire). Feitas as contas, Ianukovitch ganhou um Estado partido a meio, não por motivos políticos mas por diferenças profundas de natureza étnica, linguística e cultural.
A Ucrânia é multinacional. Uns, identificam-se como etnicamente ucranianos; outros, com a mesma convicção, dizem-se russos ou russófonos. De permeio, judeus, tártaros e outros grupos de menor expressão. Para ajudar à festa, e como se viu nas últimas eleições, os dois grupos principais estão muito concentrados territorialmente. Na Crimeia, por exemplo, vivem 58% de russos, 12% de tártaros e "apenas" 24% de ucranianos em sentido estrito (embora esta qualificação seja absurda).
Como quem foi ocupando o poder nunca quis esbater este fosso, a Ucrânia nunca foi, não é e não sei quando poderá vir a ser uma democracia. De facto, quando a população vota em função da etnia, os resultados só cristalizam e agravam uma oposição entre grupos, não exprimem a vontade de um, e só um, povo. E, quando assim é, o grupo que "ganha" ou está "por cima" quer tudo; e quer, sobretudo, mostrar ao outro que é ele que manda.
Assim se explica que o urso russo tenha acordado, e é erro muito grave deixar de lado este factor e a força da História e do "sangue". Que mostre agora as garras na Crimeia e que Putin tenha pedido à Câmara alta do Parlamento que o autorize a enviar tropas para a Ucrânia.
Dirão alguns, agrilhoados numa visão fechada do "nós" contra o "outro" (o "mau"): a Rússia é imperialista, a Rússia é perigosa. A esses, respondo com um exercício.
Imaginem que os Estados Unidos tinham ficado sem uma parcela do seu território, entregue a um país vizinho e onde ficaram milhões de americanos. Imaginem que nesse território os EUA tinham conservado uma base naval fundamental para os seus interesses estratégicos. E imaginem, finalmente, que os EUA, com algum fundamento, sentiam que os "seus" norte-americanos e a base naquele tal território estavam em risco. Ficavam quietos? Brincamos, é?
Para quem a saiba, a História (aquela coisa inútil que não serve para nada) ajuda muito. Quando se quer evitar um conflito que pode vir a ser muito grave, a primeira tarefa é tentar saber onde está a corda e qual a sua resistência. Porque, quando a corda se parte, é tarde e logo se ouve o rufar dos tambores da guerra.

Azeredo Lopes - JN

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Carta ao pai!



Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos. A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira. Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar. Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida. Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros. Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós - e como todos os autores destes singelos insultos -, fez aquilo que lhe restava fazer. Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje - Carminho, Carlos do Carmo, Marisa, são incontáveis - fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música. Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha. Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar. Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui - e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte - pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora. Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

João Tordo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014



31 de Janeiro, é o dia nacional do Sargento português.
Não se trata de um acaso sem significado histórico a escolha desta data. Ela foi seleccionada, porque, neste dia, em 1891, na cidade do Porto, os sargentos da guarnição militar, acompanhados de dois ou três oficiais de baixa graduação, fizeram sair para a rua uma revolta militar destinada a proclamar — como, aliás, foi proclamada — a República como regime em Portugal. Foram eles, os Sargentos, quem “limpou” a honra do Exército contra a afronta ocorrida um ano antes, quando a Inglaterra enxovalhou internacionalmente a Monarquia portuguesa, obrigando-a a transmitir ordens para Moçambique, fazendo recuar uma pequena força militar que ocupava territórios que, segundo Londres, estavam sob a protecção soberana da coroa britânica. Foi o célebre Ultimatum de 1890. Foi o começo do fim de uma Monarquia que já não tinha nem glória nem dignidade para representar uma Nação. O Sargentos foram os primeiros a pressentirem e a manifestarem o sentimento de revolta das Forças Armadas. Foram ingénuos no modo como executaram a tentativa revolucionária, deixando-se arrastar por um romantismo que socialmente vivia à flor da pele. Mas essa ingenuidade só provou o lado bom dos Sargentos, despindo-os de interesseiras intenções. Só queriam o que julgavam ser o regime mais representativo, mais democrático e mais justo para Portugal. Muitos pagaram com a vida, com a prisão e o degredo a ousadia de levarem pela frente um desejo que ainda não estava suficientemente maduro no seio da sociedade nacional. Mas o exemplo ficou e frutificou em 5 de Outubro de 1910.

 Foi depois de outra libertação — a de 25 de Abril de 1974 — que os Sargentos, por iniciativa de uns quantos, num 31 de Janeiro de um ano que já não recordo, resolveram juntar-se num almoço para arvorarem essa data no dia da sua classe. Ainda não se falava em associativismo militar e, muito menos, em Associação Nacional de Sargentos. Mais uma vez, eles, com a força da sua vontade, de peito aberto, saíram a terreiro e, sem o apoio de nenhuma instituição castrense, proclamaram que tinham o direito a ter o seu dia, um dia glorioso, não por celebrar uma vitória, mas por recordar o sonho da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

 O meu Pai, primeiro sargento enfermeiro da Armada, já nessa época distante, na situação de reserva, embora na efectividade de serviço, respondeu à chamada dos seus camaradas e lá foi, salvo erro, para Almada, Cacilhas ou Laranjeiro, comemorar o dia nacional do Sargento.

Confesso que foi com orgulho que o vi tomar essa iniciativa, porque, estando ele há muitos anos na situação de reserva, poderia sentir-se desligado das obrigações morais que tinha para com os seus camaradas. Mas o meu Pai, humanista e estudioso da política nacional e internacional, culto, dado à poesia e ao jornalismo, julgou que a classe militar de onde provinha pudesse precisar dos seus serviços e prontamente se apresentou, marcando presença e engrossando a cadeia humana que se estava a formar. No orgulho que senti floresceu o exemplo com que sempre me havia ele balizado a existência.

 Os anos sucederam-se uns atrás dos outros; estou próximo de ser mais um septuagenário militar a quem resta o orgulho de ter servido a Pátria onde, quando e nas condições por ela ditadas. A minha arma hoje é a palavra. Esgrimo-a com a mesma vontade com que, há quase cinquenta anos, escolhi a carreira castrense para ser útil à sociedade. Recordar o meu Pai, a classe de Sargentos e o 31 de Janeiro são obrigações que assumo com prazer e alegria, porque, quanto mais o tempo passa, mais próximo me sinto das minhas origens familiares.

Luís Alves de Fraga

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio, o exemplo!


Eusébio não foi apenas um genial jogador de futebol. Quem teve o privilégio de o ver jogar sabe que não era apenas o atleta da explosão fácil, da impressionante finta em corrida, dos espectaculares remates com qualquer dos pés que punham estádios em delírio. Foi um atleta invulgar, é certo. Dos melhores de sempre. E, embora eu fosse ainda um jovem já convictamente sportinguista, não perdia a oportunidade de o ver jogar, decidindo muitas vezes por ele em vez de uma tarde passada em Alvalade. Eusébio ensinou a gerações de jovens, pelo exemplo da atitude em campo, que o trabalho é feito de esforço e de alegria. Que é exactamente a capacidade de ultrapassar os limites do sofrimento, convertendo em esforço os restos das suas fraquezas e cansaços, o passo decisivo que entrega dimensão excepcional ao valor do trabalho.
Vi o Eusébio jogar com a cabeça ligada, com os joelhos desfeitos, gemendo de dores, a ser maldosamente rasteirado. Julgo mesmo que não terá havido atleta português que tenha levado tanta sarrafada, pontapeado pelo desespero de quem não sabia defrontar tamanho talento. A bola saía de campo, era do adversário, gentilmente Eusébio ia buscá-la e entregá-la. Colidia com um antagonista, era cuidadoso e havia sempre um gesto de ajuda. E depois era a Pantera Negra. Rápido como raros, intuitivo e elegante, e de uma alegria contagiante quando celebrava os muitos e espectaculares golos que marcou por esse mundo.
Nesse país cinzento em que então vivíamos, onde a própria alegria era objecto de censura, Eusébio transformou-se no ícone de gerações. A arte de jogar futebol com entrega desmedida à sua paixão. Cobiçado por ser assim. Invejado por ser assim. Sobretudo respeitado por ser assim. Eusébio sintetiza, na sua pureza e carácter como atleta, o que de melhor Portugal pode fazer. E, para nosso desencanto, é a antítese do país que hoje somos. Os vídeos dos seus jogos deveriam ser matéria obrigatória das aulas de formação cívica. Para mostrar como o talento, o trabalho e a vontade de vencer apenas se revelam na paixão, no empenho, na alegria e na solidariedade. Esta riqueza é o somatório que fez de Eusébio um sinal da história. Parabéns pelos 70 anos, grande herói! A Pátria saúda-te!
Escrevi este artigo de opinião em 2012, quando Eusébio fez setenta anos. Não retiro uma única palavra. Apenas acrescento uma: saudade!
Francisco Moita Flores.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mensagem de Ano Novo.


Caros Amoreirenses!

Os anos são como os rios, nascem, crescem e morrem; tumultuosos, por vezes serenos, para no final da marcha se esvanecerem. Os rios perdem-se nos oceanos, os anos morrem sós, para darem lugar a um novo ser. 

Desapareceu 2013, nasce 2014 e com este o ser humano renova sonhos e esperanças; alguns acreditam que o que nasce é sempre melhor do que foi “o morto”.

Ser positivo é acreditar que o futuro é sempre mais risonho do que foi o passado, já que o presente é uma ficção.

Ser pessimista é acreditar que o futuro é sempre pior, pela incerteza da orientação dos ventos ou pelo temor do oculto, já que o futuro é uma mancha negra que se ilumina a cada momento pelo presente.

Ser pragmático é ser sensato, é aceitar que o passado nos ilumina a cada instante para podermos ter fé no futuro.

A sociedade é a convergência forçada de uma infinidade de egos e por isso é o mal ou bem que todos constituímos.

Ser pragmático é reconhecer que há vontades que se impõem gerando consensos, orientações ou imposições.

Ser pragmático é saber quais são as nossas reais capacidades e quais são os nossos verdadeiros contributos para que o criticável deixe de o ser.

Passamos a vida a auto elogiar-nos e a apontar os defeitos de todos os outros, esquecendo-nos que a perfeição só poderá existir quando não for possível fazer comparações. O único é perfeito mas o colectivo, ainda que imperfeito, é o possível.

Prefiro o possível, já que abomino os que se dizem únicos. Por tal motivo chegou o momento de iniciar uma nova caminhada.

Neste início de ano convêm lembrar as situações difíceis vividas por muitos portugueses, como o desemprego, presente no Natal de quase todas as famílias, a emigração que “obrigou” tantas famílias a passar esta quadra separadas e a pobreza que atinge tantas pessoas e as obriga a escolhas difíceis.

Todos nós sabemos bem que muitos destes sacrifícios, muitas destas privações foram longe demais e são resultado dos erros e das más escolhas do actual governo. Não pode ser assim!

Empobrecer nunca foi a solução, este não é o país que queremos nem o país que merecemos.

Todos nós sabemos que é preciso dar a um novo rumo a Portugal. Este é o momento de iniciarmos uma nova caminhada, juntos, que não deixe ninguém para trás. Somos um povo extraordinário, afável e trabalhador. Somos capazes de fazer melhor pelo nosso país, por nós, pelos nossos filhos.
É o momento de combatermos com firmeza as desigualdades sociais que fazem apodrecer a nossa vida em comum. A nossa missão é ajudar a construir um país mais justo e parar a destruição do que foi alcançado com tanto trabalho por tantos portugueses.
Chegou o momento de construir um novo tempo que aposte na criação de riqueza e de emprego, apostando nas pessoas, investindo na educação e na inovação, apoiando o dinamismo da sociedade portuguesa.
Nós, portugueses, somos capazes de fazer melhor, aqui em Portugal ou em qualquer canto do Mundo, todos os dias os portugueses mostram que são capazes!

Vencemos no passado, venceremos no futuro!

Que 2014 seja o ano de um novo rumo para Portugal!

“Plataforma Amoreira Um Novo Rumo!”

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mensagem de boas festas!



Estamos prestes a celebrar mais um Natal, Festa da Família e data propícia à manifestação de sentimentos de solidariedade e apelos à concórdia entre as pessoas e entre os povos.

Neste contexto, não é demais salientar a função da família que se reafirma como núcleo fundamental da nossa sociedade.
Porém, é nos tempos mais difíceis que os laços afectivos e de solidariedade se tornam imprescindíveis para atenuar situações graves de carência económica e social.
O sentimento de Natal obriga-nos a reflectir sobre as graves desigualdades que marcam a nossa sociedade. Nestes tempos de austeridade, em que os níveis de pobreza não param de aumentar, não podemos esquecer os que não têm meios para usufruir de uma vida digna, alguns não auferindo sequer os mínimos que assegurem a sua sobrevivência. Não podemos deixar de nos orientar por um objectivo de maior justiça social e de lutar para uma maior equidade na redistribuição da riqueza.
Convém, mais uma vez considerarmos quanto é fundamental, a nível da formação e da educação ao longo da vida, um reforço dos valores civilizacionais de desenvolvimento pessoal e social que estão na base de uma sociedade mais humanizada.
A situação económica do nosso país é muito grave e os políticos, aos vários níveis, não devem esquecer que a sua função é tomar decisões e lutar para assegurar um desenvolvimento sustentado às pessoas e aos seus territórios. E isto ainda se torna mais importante quando se trata de uma relação de grande proximidade, como acontece no poder local.
Dadas as dificuldades que nos aguardam no próximo ano de 2014, cabe a todos e a cada um, contribuir com o seu trabalho e determinação para construir um futuro próximo com mais esperança no desenvolvimento económico e social. Neste final de ano, cabe-nos sublinhar a intenção de continuar a ter sempre presente o desenvolvimento da Amoreira. As nossas propostas para o ano de 2014 são prova disso!
Os eleitos do Partido Socialista na Assembleia de Freguesia desejam, em particular a todos membros desta Assembleia e do Executivo da Freguesia e, em geral, a todas as famílias amoreirenses um Feliz Natal 2013 e um Bom Ano de 2014. Boas Festas

Plataforma Amoreira Um Novo Rumo



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

África do Sul. O prisioneiro 46 664 livre para entrar na eternidade!


Zuma fez o anúncio na televisão estatal, deixando um apelo à unidade dos sul-africanos na despedida a Nélson Mandela

Nelson Mandela morreu pacificamente às 20h50, menos duas horas em Lisboa, na sua casa em Joanesburgo, África do Sul. Mandela tinha 95 anos, completados a 18 Julho, na sua casa, para onde foi levado em Setembro, após quase três meses de internamento hospitalar em Pretória devido a uma grave infecção pulmonar.  O antigo prisioneiro número 46 664 da ilha prisão de Roben Island agonizou corajosamente durante meses no seu leito de morte, antes de ficar finalmente livre para entrar na eternidade. O anúncio da morte de Mandela foi feito pelo presidente sul-africano Jacob Zuma, vestido com uma camisa preta, num depoimento para a televisão estatal: “A nossa nação perdeu o seu filho mais importante”. 

Zuma dirigiu-se aos sul-africanos referindo que “Mandela uniu-nos e é unidos que nos devemos despedir dele”. Apesar deste apelo à unidade, o internamento de Mandela esteve envolto num circo mediático montado junto ao hospital onde o ex-chefe de Estado esteve internado em Pretória e a presença oportunista de inúmeras personalidades políticas que rodeavam o paciente manteve-se quase até ao fim e passou mesmo para dentro da própria casa, com os herdeiros a digladiarem-se numa guerra suja pela partilha dos seus bens.
Mandela já não se terá apercebido desta luta travada pelos descendentes do seu primeiro casamento, filhas e netos, e destes contra a sua última mulher, Graça Machel, o foco principal do ódio e ressentimento dos herdeiros de Mandela.

Duas de três filhas de Mandela, no total teve seis filhos de três casamentos, Makaziwe e Zenani, intentaram uma acção judicial contra um grupo de advogados nomeados pelo pai para dirigirem duas empresas cujo objectivo é acumular dinheiro para os seus herdeiros. De forma intencional, Mandela decidiu não permitir que a família exercesse o controlo destas e de outras empresas patrimoniais. No entanto, duas irmãs,  apoiadas por outros membros da família, tentam por todos os meios, e contra os desejos expressos pelo pai, obter o controlo das referidas empresas. 

As filhas do Prémio Nobel da Paz e primeiro presidente negro da História sul-africana recorreram aos tribunais pedindo acesso a uma parte da sua fortuna pessoal. Madiba havia-lhes negado tal direito em 2008, quando despediu um advogado que alegadamente facilitava o acesso das suas contas às filhas, substituindo-o na condução da fundação com o seu nome por dois homens de confiança, o advogado George Bizos e Tokyo Sexwale, actual membro do governo.

Enquanto os herdeiros aguardavam avidamente o momento das partilhas, durante algum tempo houve discussões públicas sobre a decisão de desligar os aparelhos vitais que mantinham vivo o pai da pátria. Desde logo, o governo quis capitalizar o efeito político Mandela e sempre temeu distúrbios após o seu desaparecimento.
  
Muitos sul-africanos defenderam logo que Madiba foi internado que tinha chegado a hora da nação se preparar para o deixar partir em paz, enquanto alguns membros da sua família eram fortemente criticados por se preocuparem exclusivamente com a partilha do seu património.  “As pessoas estão profundamente perturbadas com a mesquinhez de alguns dos seus familiares”, denunciou, em certa altura, a professora Sarah Nutall ao jornal Today. “Ao contrário de Martin Luther King e de Gandhi, ele não foi assassinado. Deveríamos ter-lhe dado a oportunidade de morrer em paz”, sublinhou. Os políticos do CongressoNacional Africano (ANC) no poder sempre temeram que Mandela desaparecesse antes das eleições de 2014, com receio de que isso pudesse ter algum impacto negativo no resultado eleitoral. Mandela congregava tudo e todos. Muitos dos seus familiares e líderes de variadas procedências viviam praticamente à sombra do seu legado. Talvez isso fosse resultado do verdadeiro passe de mágica que realizou quando, em 1994, juntou no novo hino nacional duas músicas estruturalmente antagónicas: o hino nacional da África do Sul do apartheid, The Call (O apelo) e o do ANC, Nkosi Sikelel Africa, (Deus Abençoe África) para criar uma nova harmonia musical e racial.

O país do arco-íris, um conceito inventado pelo arcebispo Desmond Tutu, ainda é hoje uma miragem, numa certa África do Sul mergulhada na violência e na corrupção, mas é um sonho de Mandela e, como todos os sonhos, é passível de se realizar, desde que os homens o queiram.
Hoje, o novo dia na África do Sul será de dor e tristeza profunda marcado pela certeza absoluta da incapacidade de se conseguir encontrar uma referência nacional com a grandeza humana de Mandela. Para os sul-africanos, e para o mundo, resta o privilégio de se ter podido conhecer um ser humano excepcional.
Graça Machel, viúva pela segunda vez de um presidente da República, deve ter-se sentido a pessoa mais infeliz do mundo, com a perseguição que as filhas e um dos netos de Mandela sempre lhe moveram, chegando mesmo a questionar a legitimidade do seu casamento.

Winnie e Graça Machel. Duas mulheres marcantes na vida de  Mandela.

Sob o título “A vigília de amor de Graça”, o semanário “City Press” de Joanesburgo destacou na primeira página, na sua peça principal, o amor e dedicação de Graça Machel ao ex-presidente Nelson Mandela, que ontem morreu. À semelhança de outros artigos, publicados na imprensa sul-africana durante a prolongada doença, a peça fala não só do amor incondicional que Graça Machel tem dedicado a Madiba,  mas também da dignidade pela qual a activista moçambicana tem pautado as suas acções desde que o marido ficou doente. Em contraste, a comunicação social, amigos e um número crescente de sul-africanos anónimos têm condenado em uníssono acções de membros da família de Mandela, que esgrimiram em tribunal argumentos sobre quem tem direito a ditar o local onde Madiba seria sepultado.

“A África do Sul tem para com Graça Machel uma tremenda dívida de gratidão pela alegria que ela deu à sua vida desde o seu casamento”, disse ao “City Press” o arcebispo Desmond Tutu. Nelson Mandela e Graça Machel casaram-se há 15 anos.
Ao contrário de Graça, mas reverenciada por milhões de pessoas nas cidades negras pobres e chamada de “Mãe  da Nação”, Winnie foi uma das vozes que se insurgiu contra o poder. Defensora da prática  do pneu a arder no pescoço dos adversários, disse um dia: “Com os nossos fósforos e pneus libertaremos este país”.

Também foi acusada de rapto e assassinato do activista Stompie Moekesti, de 14 anos, e membro do ANC. Alegações de violência envolvendo membros do Clube de Futebol Mandela United, que agiam como seu corpo de guarda e exército privado no Soweto, continuam recorrentes. Winnie desmente as acusações, mas as suspeitas sobre si persistem. Winnie diz frequentemente que o ANC falhou na resolução dos problemas da maioria negra e prevê um futuro negro se nada melhor for feito para os pobres.
“A vida de primeira-dama não me serviria”, disse Winnie. “E nem sei o que faria como dona de casa”, afirmou um dia. Hoje, Winnie faz parte da direcção política do ANC.

Sérgio Soares - Jornal I

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

"Capitães de Abril" reiteram alertas para perigo de violência em Portugal.


Os "capitães de Abril" Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho reiteraram na segunda-feira à noite os alertas para o perigo de violência na actual situação político-económica em Portugal, após uma conferência de quase quatro horas sobre o 25 de Novembro, em Lisboa.
No auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, os dois coronéis foram trocando, entre si e com a plateia, repleta de outros militares, factos, relatos e interpretações dos acontecimentos vividos desde a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, ao golpe militar liderado pelo depois antigo Presidente da República Ramalho Eanes, que instituiu o Processo Constitucional no lugar do Processo Revolucionário em Curso (PREC).
"Eu sou um dos que sou acusado disso. Não estou a incitar à violência. Estou a alertar que a violência vem aí. Venho a fazer este alerta há cerca de três anos. A figura que criei na altura foi 'vem aí uma nova revolta de escravos', se não se alterarem as políticas que estão a ser feitas. Quem está a provocar a violência é quem está a fazer as políticas", afirmou Vasco Lourenço, referindo-se a declarações anteriores, num encontro organizado por outro ex-Presidente da República, Mário Soares, há dias na Aula Magna.
O coronel, assumidamente "moderado" rejeitou ter feito quaisquer "apelos à violência", mas insistiu que, "se não alterarem as políticas, a violência vai ser inevitável", adiantando que, tal como as suas palavras, também Soares não quis incentivar qualquer acção violenta.
"É indisciplina! A burguesia, a classe dominante, a minha classe, fica extremamente em aflição quando há um prenúncio de violência. É a única linguagem. Como o Estado burguês tem o monopólio da violência e lhe foge ao controlo, da polícia, da GNR, a classe dominante fica aflita", comentou Otelo, por seu turno, sobre a recente invasão das escadarias da Assembleia da República por parte de profissionais das forças de segurança.
Para o dirigente operacional do golpe militar que depôs o Estado Novo, "vão continuar a existir coisas dessas".
"Mário Soares fez aquela charla na Aula Magna e avisou que vem aí a violência. Eu também julgo que sim. Apesar de o nosso povo ser de brando costumes - o povo é sereno, dizia o almirante Pinheiro de Azevedo -, mas, a certa altura, quando a coisa extravasa, a criminalidade está a aumentar, pode-se passar para actos de violência que vão chocar enormemente a classe burguesa que, depois, é capaz de não ter polícia e todas as forças de repressão para actuarem. E aí, é um problema", disse.
Relativamente à homenagem ao antigo chefe de Estado Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, reconheceu que a figura é merecedora, mas discordou da data em causa, por poder "abrir feridas". "Acho que a homenagem é justa pelo passado dele, agora podia ser feita, por exemplo, no 1.º de Dezembro ou no dia de anos do general Ramalho Eanes. Eu não estou na homenagem só por isso. Ao fazerem no 25 de Novembro, estão a realçar a divisão que houve. Já muito se conseguiu, muitas feridas conseguiram ser saradas e agora estão a reabri-las", justificou.
Sobre Eanes, Otelo classificou-o como "um prussiano", já que se "agarrou à Constituição como se fosse um regulamento de disciplina militar e tudo o que fugisse dali... 'corta!'".
Saraiva de Carvalho considerou que "o 25 de Novembro representa uma paragem, uma travagem brusca no PREC, que estava a ter um curso acidentado, um bocado atormentado, indisciplinado, nos quartéis (...). Que levou ao poder a facção mais moderada, mais aceite pelo mundo ocidental".
Analisando a actualidade, Vasco Lourenço defendeu que Portugal está a assistir à "destruição de tudo o que cheira a Abril", tornando-se um "protectorado de forças estrangeiras, em que o poder está a vender o país a pataco", caminhando "para situações que de democráticas têm muito pouco".
in Publico. 

domingo, 24 de novembro de 2013

Eanes, o íntegro.


Foi um dos militares que nos devolveram a liberdade, principal operacional do 25 de Novembro, que a estabilizou, e evitou uma guerra civil. A síntese desse dia foi escrita, um ano depois, pela grande escritora Maria Velho da Costa: «Não foi um acto de alegria mas um acto de necessidade.» Eanes será homenageado na próxima segunda-feira.

Primeiro Presidente da República em democracia, em tempos conturbados, direita e esquerda votaram nele por colagem às circunstâncias mas rangendo os dentes. Sá Carneiro, Mário Soares ou Álvaro Cunhal simbolizam isso. No Palácio de Belém foram anos de austeridade financeira.

Apadrinhou e distanciou-se do PRD, mas foi ele a nomear uma mulher primeira-ministra, Lurdes Pintasilgo, décadas antes de Thatcher ou Merkel.

Quando saiu de Presidente, recusou o bastão de marechal e foi tratado com miserável vilania, por trastes, nos seus direitos. Quando rectificaram, prescindiu de 1 milhão de euros em retroactivos. Não conheço outro caso.
Fiz a cobertura da sua campanha de reeleição em 1980. Tímido e reservado provocava (me) um certo distanciamento. Terei trocado meia dúzia de palavras com ele. Não posso testemunhar, pois, como me dizem, o seu enorme sentido de humor. Nunca conseguiu lidar com o espectáculo político-mediático, com um discurso cerrado e pouco acessível. Recusou o populismo e a simpatia fácil. Se em República houvesse cognomes, seria "o Íntegro". E, Presidente, isso todos os portugueses lhe reconhecem.

 Fernanda Mestrinho


Jornalista/advogada

Jornal I

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Metade das verbas dos Jogos Sociais afeta à saúde irá financiar cuidados continuados.

Metade do valor das receitas dos jogos sociais atribuído ao Ministério da Saúde vai financiar, em 2014, a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, segundo uma portaria publicada hoje em Diário da República.

O Diário da República publica hoje duas portarias que fixam as normas necessárias à repartição dos resultados líquidos de exploração dos jogos sociais atribuídos aos ministérios da Saúde e da Administração Interna, que entram em vigor a 01 de janeiro de 2014.
A verba afeta ao Ministério da Saúde (MS) será repartida pelas áreas ligadas à prestação de cuidados continuados integrados, à prevenção e tratamento das dependências e dos comportamentos aditivos e ainda aos programas de saúde considerados prioritários.
Segundo a portaria do MS, 50% dos resultados líquidos de exploração dos jogos sociais atribuídos ao ministério serão afetos à Administração Central do Sistema de Saúde para financiar a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.
Um terço das verbas destina-se a entidades que "prosseguem atribuições nos domínios do planeamento, prevenção e tratamento dos comportamentos aditivos e das dependências" e será distribuída por despacho do ministro da saúde, Paulo Macedo.
À Direção-Geral da Saúde serão atribuídas 17% das verbas para financiamento de programas em várias áreas, "sem prejuízo da possibilidade de gestão flexível dos recursos afetos às diferentes atividades, desde que devidamente justificada", refere a portaria.
Assim, 8% são para a área do VIH/SIDA, 3,5% para a área da saúde mental, 1% para as doenças oncológicas, 1% para a prevenção do tabagismo, 1% para a prevenção da diabetes e 0,5% para a área das doenças cerebrocardiovasculares.
Ainda segundo o DR, 0,5% das verbas serão aplicadas na área das doenças respiratórias, 0,5% no controlo das infeções associadas aos cuidados de saúde de resistência aos antimicrobianos, 1% para a área da nutrição e alimentação saudável e para outros programas a desenvolver no âmbito da prossecução dos objetivos do Plano Nacional de Saúde.
Relativamente às verbas dos jogos sociais atribuídas ao Ministério da Administração Interna, 2,77% do valor será atribuído à Autoridade Nacional de Proteção Civil para prossecução de finalidades de proteção civil, emergência e socorro, nomeadamente para apoio a associações de bombeiros voluntários.
À Secretaria-Geral do MAI será atribuída 0,30% das verbas para financiamento de iniciativas no domínio da sinistralidade rodoviária e da prevenção da criminalidade, designadamente em espaços turísticos, no interior do país e em zonas de risco.
As verbas terão ainda como destino o financiamento de iniciativas no domínio da prevenção dos riscos sociais, da vitimação e do sentimento de insegurança decorrentes da criminalidade.
Serão ainda atribuídos à Secretaria-Geral do MAI 0,69% das verbas para "posterior transferência para as forças de segurança, para o policiamento dos espetáculos desportivos".
O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Pedro Santana Lopes, já tinha explicado à agência Lusa que 72,8% das receitas dos jogos sociais são atribuídos a várias entidades para fins públicos, nomeadamente para a cultura, desporto, Segurança Social, saúde, administração interna, entre outras finalidades.

Lusa 7/11/2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Como vai ficar registada na História a revelação de documentos ultrassecretos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (EUA) feita por Edward Snowden? A espionagem, nas suas mais diversas expressões, é uma velha atividade em regra bastante suja. Não é fácil detetar nas práticas individuais e coletivas do processo valores éticos, morais ou de relevância humanista. Mas, ao longo da História observam-se atos de espionagem que estiveram na origem de grandes transformações da sociedade e/ou que fixaram sentidos na mudança de poderes. Snowden não nos trouxe propriamente uma descoberta, mas despertou atenções que podem vir a ser importantes.

Primeiro, a aldeia global está bem pior do que a aldeia real. Na aldeia global, os especialistas da coisa conseguem ter um ouvido e um olho dentro de cada casa ou no telemóvel de cada cidadão, enquanto na aldeia real as fontes se situavam em coscuvilhices e na ação de "bufos" que municiavam os especialistas. Na mudança de era que estamos a viver, a Internet é uma tecnologia que foi apropriada por um poder que brinca hoje, perigosamente, com a vida dos seres humanos, sem sujeição a qualquer escrutínio popular e democrático.

Segundo, os EUA - que ainda se sentem como senhores todo-poderosos da aldeia global - usufruindo da concentração dos comandos da Internet, optaram por utilizar os avanços tecnológicos pela via mais ignóbil da "inovação" social, o assassinato da liberdade e da democracia.

Terceiro, fica provado até à exaustão que o liberalismo dominante só não controla os movimentos de capitais e especulativos porque não quer. Prefere usar as tecnologias para facilitar o roubo e a exploração sem limites e para aprisionar as pessoas.

Quarto, como sabemos, a chamada crise financeira mundial que eclodiu em 2007/2008 teve a sua origem nos EUA e não teria sido exportada, em tão forte dose e tão eficazmente, para a Europa como foi, sem os colossais meios informáticos que aquele país manipula.

Como denunciou em discurso corajoso Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, no passado dia 24 de setembro, na abertura da 68.ª Assembleia-geral da ONU (com Barack Obama presente), os EUA andam, de forma inqualificável, a espionar governos de países catalogados de irmãos e amigos, a apropriar-se de informações empresariais de alto valor económico e estratégico, a manipular, sem escrúpulos, dados pessoais de milhões e milhões de seres humanos.

No Reino Unido, o irmão mais próximo, os serviços secretos britânicos colaboram na operação contra o seu povo. Na França, em 30 dias, espiolharam, em absoluta ilegalidade, mais de 70 milhões de dados telefónicos de franceses. Na Alemanha, a prática é a mesma e parece que nem a sr.ª Merkel escapa. Agora surgem notícias sobre a Espanha e, por certo, a situação será idêntica na generalidade dos países europeus. Nós, portugueses, dificilmente saberemos o que de facto se passa connosco, pois somos governados por subservientes e traidores políticos, que optarão sempre por credibilizar o poder externo, em desfavor dos direitos e interesses do povo e do país.

Por que é que a "Europa" é colocada nesta situação vergonhosa? Será que podemos e conseguiremos sair deste atoleiro? Os países da União Europeia, no seu conjunto e cada um, estão dependentes e submetidos. Estão absolutamente ensanduichados entre os EUA, potência que está a perder poder económico e político, e a força dos países emergentes.

A "Europa" integrou-se na dinâmica da globalização neoliberal, nunca se quis afirmar como polo alternativo - objetivo que entretanto se tornou desadequado - e hoje é arrastada pelo grande irmão no seu estrebuchar. Foi por isso que a cabeça do neoliberalismo se instalou no espaço europeu nos últimos anos. Para atacar o modelo social europeu e um significativo quadro de direitos sociais e políticos vale tudo.


Só uma perspetiva nova de respeito pelos povos, por valores de universalismo e solidariedade assentes numa estratégia séria de cooperação, desde logo entre os países europeus, mas também com países e povos de todas as latitudes, poderá salvar-nos. Iremos a tempo?

Carvalho da Silva - JN